Reserva de mercado na sua estante

Recentemente o filme Vingadores – Ultimato esteve no centro de uma polêmica. No país, nos primeiros dias de exibição, ele ocupou cerca de 80% das salas de cinema, o que fez com que o brasileiro De Pernas Pro Ar 3 perdesse espaço. Isso reabriu uma discussão antiga sobre cinema comercial aqui: deve haver a chamada reserva de mercado para produções nacionais?

O que me leva à pergunta que vai trazer o tema para esse espaço: dos últimos cinco livros que você leu, quantos eram nacionais?

Veja bem, na essência essas não são situações que se equivalem, já que, por parte das editoras, o mesmo espaço parece ser dado para venda e divulgação de autores brasileiros e estrangeiros.

O problema real está mais em um preconceito presente no público leitor. Ao todo, tenho cinco anos de experiência trabalhando em livrarias e é perceptível o crescimento dessa postura nos últimos anos, principalmente entre leitores mais jovens, que não se interessam por autores nacionais, pelas temáticas abordadas por gente daqui.

Não apresento aqui nenhum dado estatístico. Essa é uma percepção de vendedor mesmo. A impressão que tenho é de que muitas vezes uma história contada por um autor estrangeiro sai na frente só por conta do nome. Cinema e TV ajudam, já que muitos dos mais vendidos nos últimos anos são livros que deram origem a filmes e séries. Tudo isso, claro, mantendo-me no campo da literatura ficcional.

E os argumentos são dos mais rasos. Desde “o tema não me interessa” até “mas brasileiro só fala de tragédia”, passando por “ele é chato”, dito por alguém que nunca leu tal autor.

É claro que a essa altura eu deveria estar propondo uma solução. Mas a verdade é que dificilmente alguém a tenha assim, magicamente. O que dá pra entender é que o grande problema está na base.

Algo que é praticamente um senso comum é que muitos leitores foram perdidos por indicações precipitadas de professores na educação básica, em que quase sempre você era obrigado a ler autores clássicos para os quais uma criança de 13 ou 14 anos não estava pronta. Penso então que a saída passe por uma curadoria de conteúdo mais criteriosa nessa fase da vida de um estudante. E que, claro, essa curadoria inclua autores brasileiros.

Em uma semana tão importante quanto a que passou, com protestos em todo o país contra cortes na educação, contra uma ação irresponsável do atual governo, que só tem como objetivo acabar com o livre pensar da sociedade, esse pode ser um debate menor, mas certamente é um assunto para levarmos a sério, para que o discurso fácil e superficial do “brasileiro não gosta de ler” desapareça de vez.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s